Quinta-feira, 1 de Maio de 2008
Lisboa não paga a água que bebe

1. Portugal é o país das Auto-Estradas.

“Capital Europeia do Betão: Lisboa é a região da União Europeia com mais auto-estradas”. Era este o título de 1.ª página do “Jornal Expresso” de 12 de Abril de 2008.

Segundo o mesmo Jornal, Portugal é já um dos países da Europa com mais auto-estradas por habitante e por quilómetro quadrado e o novo plano rodoviário prevê mais 570 Km nos próximos anos, além de outros grandes investimentos em estradas, hospitais, novo aeroporto de Lisboa, pontes, barragens e outras obras onde serão investidas enormes quantidades de dinheiro, em parte vindo de Bruxelas e noutra parte dos contribuintes portugueses.

O “Semanário Económico” de 11 de Abril de 2008 trazia também um extenso artigo com o tema “Década de Ouro” das Obras Públicas, dando conta do enorme volume de obras públicas anunciadas pelo Governo para os próximos anos em estradas, pontes, aeroporto, comboios de alta velocidade, barragens, hospitais e outras infra-estruturas em que será investida a cifra fabulosa de cerca de 40.000 milhões de euros (cerca de 8 biliões de contos na moeda antiga).

E, já que falamos em notícias de jornais, porque não invocar aqui outra notícia de natureza diferente mas que se prende com o nosso tema, esta do semanário “Sol” do dia 19 de Abril de 2008, que dava conta que o Governo deu (entenderam bem, “deu” do verbo “dar”!) 2 milhões de euros (quatrocentos mil contos!) para pagar o patrocínio de um senhor chamado Tiago Monteiro que, ao que parece, gostava muito de correr em automóveis e se inscreveu na Fórmula 1 por onde andou 2 ou 3 anos (consta que o senhor em causa tinha algum jeito e, embora geralmente nos últimos lugares, até conseguiu terminar várias corridas).

2. Os buracos negros do Interior de Portugal.

Analisando os mapas que os dois primeiros jornais apresentam em relação à distribuição das grandes obras públicas recentemente anunciadas pelo Governo constata-se que a esmagadora maioria dessas obras vai localizar-se no litoral, nomeadamente na região de Lisboa, acentuando ainda mais a macrocefalia do país e desnivelando ainda mais as condições de vida do país em desfavor do interior.

É certo que algumas regiões do Interior são também contempladas com obras significativas, nomeadamente com barragens (para continuarem a produzir mais energia para o litoral). Porém, a constatação mais preocupante e revoltante em relação à nossa região, com que a esmagadora maioria dos cidadãos aqui residentes ou daqui originários certamente concordará, é que existe um enorme buraco, uma espécie dum buraco negro, onde não está previsto entrar nem um tostão deste enorme bolo de investimentos públicos. Esse buraco negro é justamente uma vasta região que abrange todo o distrito de Castelo Branco e zonas periféricas de distritos confinantes como é o caso da região interior do distrito de Coimbra (mormente a Pampilhosa da Serra). É só olhar para o mapa de localização dos referidos investimentos.

Não somos contra os grandes investimentos públicos, eles são necessários para reanimar a economia, para criar emprego, para melhorar ainda mais as infra-estruturas do país. Não somos, pois, contra as medidas anunciadas, mas, haja alguma vergonha e decência, Portugal não é só o litoral, Portugal não é só Lisboa.

Aqui esbanja-se muitas vezes o que seria necessário investir noutras regiões e noutro tipo de investimentos. Veja-se, por exemplo, o caso de uma super auto-estrada de 3 faixas para cada lado e com enormes viadutos que liga o Carregado à CREL, passando ao lado de Arruda (a célebre A10) e que corre paralela a não mais de três ou quatro quilómetros da AE 1 que, como pode ver quem lá passa, não tem trânsito quase nenhum. O custo dum ou dois quilómetros deste monumento ao despesismo e ao esbanjamento, desta autêntica orgia de obras faraónicas, daria certamente para construir uma estrada decente na encravada região do Pinhal Interior.

3. A Região do Pinhal Interior é um buraco negro dentro de outro buraco negro.

Quem resida ou se desloque pela região do Pinhal Interior sabe do que falamos. Veja-se, por exemplo, o conjunto formado pelo concelho de Oleiros, pela parte norte do concelho de Proença a Nova, pela parte nascente do concelho da Sertã, pelo poente do concelho do Fundão e de Castelo Branco e pelo concelho de Pampilhosa da Serra. Quem se deslocar por estas terras terá que o fazer pelas mesmas estradas em que o fazia há 50 anos. Isto não é exagero como muito bem sabem os cidadãos da região, os empresários, os autarcas, os políticos que às vezes (em época de eleições) por lá passam. Quem já percorria a estrada de ligação de Oleiros a Castelo Branco há 50 anos hoje faz as mesmíssimas curvas (aleluia que houve recentemente três quilómetros melhorados na zona do Padrão já perto de Castelo Branco!) dos cerca de 60 Kms que separam as duas localidades. Quem se dirige de Oleiros para a Sertã a estrada é exactamente a mesma de há 50 anos, com uma ligeira melhoria de 6 Kms feita há cerca de 30 anos (antes da CEE). Quem for de Oleiros para norte, Pampilhosa da Serra, ou para sul Proença-a-Nova percorre as mesmas estradas sinuosas de há 30 anos (feitas também antes da CEE).

Isto significa que depois de biliões e biliões de contos (dos antigos) que vieram de Bruxelas nos mais de 20 anos que Portugal já tem de União Europeia e dos biliões e biliões de euros que já vieram e se preparam para vir neste quadro comunitário de apoio ao país (que vai até 2013 e que parece que será o último) nunca houve umas míseras centenas de milhares de contos, que acabam por ser uns tostões nos gigantescos números que estão em causa, para fazer uma estrada decente de ligação desta região com as grandes vias rodoviárias que a circundam, nomeadamente com a A23 e com o IC8 e com a capital do distrito.

4. Os autarcas da região fazem o que podem e que é muito.

O que é curioso e positivo constatar é que no que depende do poder autárquico houve uma mudança radical nas últimas décadas nos concelhos do Pinhal. Hoje há boas ligações das sedes de cada concelho para as freguesias e aldeias em geral, tudo está electrificado, há sistemas de abastecimento de água, fizeram-se outras infra-estruturas de vária natureza, a cultura e a ecologia ocupam um espaço importante nas preocupações e nos orçamentos dos municípios, o que faz com que seja agradável e saudável viver ou passar férias nesta região que, aliás, começa a ser procurada por estrangeiros.

Onde as coisas estão péssimas é nos trajectos para lá chegar e para de lá sair, quem tem falhado grosseiramente é o poder central, o que inclui todos os Governos.

Ainda que não desconheçamos que a região é pobre e que os municípios são financiados por transferências do Orçamento do Estado, a verdade é que isso também acontece com outras regiões do país que, no entanto, não estão tão abandonadas nem tão distantes do Terreiro do Paço.

5. Não pedimos auto-estradas nem outras obras faraónicas mas Lisboa deve-nos a água que bebe.

Temos um dos últimos paraísos da Europa que, além doutras riquezas, é a fonte onde Lisboa vai buscar a água que bebe. Por isso não pedimos aeroportos, nem tgvs, nem auto-estradas, nem outras obras faraónicas. Mas, ao menos, senhores políticos, senhores do Governo, façam uma estrada decente para nos podermos deslocar aos locais onde nascemos, para que os lá residentes possam sair e entrar quando vão aos médicos ou vão trabalhar, para que os turistas que pretendam contemplar as maravilhosas paisagens da nossa região o possam fazer sem dizer que nunca mais lá voltam, para que um ou outro investidor que ainda vai resistindo (e temos alguns resistentes que bem merecem ser acarinhados) tenha condições mínimas de acesso e escoamento dos seus produtos.

Não pedimos aeroportos, nem tgvs, nem auto-estradas, nem outras obras faraónicas, mas também somos Portugal. E perguntamos (porque perguntar não ofende), se, por exemplo, o Sr. Tiago Monteiro pode ter 2 milhões de euros do dinheiro dos contribuintes portugueses para correr na Fórmula 1, se nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira se pagam impostos mais baixos e se os respectivos Governos são compensados com dezenas de milhões de euros por mês saídos dos impostos pagos no Continente, se as mesmas Regiões Autónomas absorvem anualmente centenas de milhões de euros e se têm vias rápidas e túneis que, muitas vezes, vão dar acesso a miradouros (aliás lindíssimos!), tudo em nome da insularidade e da periferia (cuja situação não contestamos), porque razão não há umas míseras centenas de milhares de contos para que este Pinhal mais Interior tenha acessibilidades decentes?

E, perguntar-se-á, o que são acessibilidades decentes? No mínimo seria uma via moderna que percorresse a bacia média do rio Zêzere no sentido nascente/poente aproveitando o relevo montanhoso que vai do Fundão a Tomar, passando por Oleiros, Sertã e Ferreira do Zêzere. Seria igualmente necessária uma via longitudinal que ligasse o concelho da Pampilhosa da Serra à A 23 no concelho de Mação, cruzando o concelho de Oleiros de norte para sul e que beneficiaria igualmente partes dos concelhos de Sertã, de Proença a Nova, do Fundão e até da parte poente do concelho de Castelo Branco.

Seria exigir muito? Senhores políticos, peguem lá nuns tostões dos muitos biliões (milhares de milhões) que têm para gastar e, mesmo que aqui não haja tantos votos como noutras regiões do país, ao menos lembrem-se que aí em Lisboa bebem boa água que nasce nas encostas do Zêzere, purificada pelos pinhais que por aqui ainda vão resistindo e que há aqui pessoas que vão impedindo que a desertificação seja ainda mais dramática.

6. Quem não se sente não é filho de boa gente!

O que fica dito neste texto não é nenhuma novidade e muitos outros o têm dito e escrito. Recordam-se, por exemplo, as intervenções públicas do Presidente da Câmara de Oleiros, no Governo do Dr. Durão Barroso, clamando pelas injustiças de que esta região tem sido alvo, com a imprensa nacional a fazer-se eco desses protestos. Mas, nunca é demais clamar, nunca é demais dizer que não nos calamos, nunca é demais usar uma das frágeis armas que temos e que é, sem dúvida, a utilização da imprensa regional que vai dando eco aos legítimos interesses da nossa Região interior.

Modestamente, os signatários entendem que está outra vez na hora de esboçar um protesto, de dizer que temos olhos para ver e ouvidos para ouvir, que não somos burros nem analfabetos. Por isso, sugere-se aos leitores destas linhas que, em caso de concordância, remetam uma carta, fax ou e-mail para algumas instituições políticas queixando-se e sensibilizando-as para este problema, lembrando a Lisboa que nós também existimos e que, ao menos, faça uma estrada decente para servir a região do Pinhal Interior que é onde nasce a água que bebe todos os dias. Todos temos o direito à indignação e todos sabemos por experiência de vida que muitas carências individuais e colectivas só são satisfeitas se aparecerem nos meios de comunicação social ou se chegarem aos centros de decisão. E se muitos portugueses enviaram cartas e e-mails por várias causas justas (por exemplo por Timor) porque não o haverão de fazer nesta causa que directa ou indirectamente é certamente de muita gente que sente o problema que modestamente aqui fica abordado. Cá vão os e-mails da Presidência do Conselho de Ministros e dos Grupos Parlamentares dos dois principais Partidos Políticos com assento na Assembleia da República que têm deputados eleitos por esta Região. Assim, Presidência do Conselho de Ministros: Fax: 213.927.860; e-mail: gab.mp@mp.gov.pt; Grupo Parlamentar do PS: gp_ps@ps.parlamento.pt; e Grupo Parlamentar do PSD: gp_psd@psd.parlamento.pt

Oleiros, 25 de Abril de 2008

J. Santos Marques

(Presidente da CM Oleiros)

J. Silvério Mateus

(Advogado)

publicado por Verde Pinho às 13:59
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